quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Vermelho


Eu vejo o mundo todo borrado,

É falta de foco, dizem eles

Num é não.

É minha máquina que veio com defeito

Mas como são lindos esses vermelhos!

e se derramam no céu de outubro,

na pia, no ralo, no branco-nuvem dos azulejos.

Ontem mesmo na cozinha,

a faca bem amoladinha

foi no tomate, pegou no dedo

e como escorrem esses vermelhos,

na pia, no ralo, no branco-nuvem dos azulejos.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Em agosto venta


Tenho medo de morrer cedo.
Tenho medo de durar muito,
ficar velha, andar lento, pedir tudo.
Ver o povo ir embora e ficar por último.  
Tenho visto gente dobrar a esquina e nunca mais voltar,
gente feita de vento,
gente-balão,
que bate os sapatos,
joga os sacos
e vai pro céu.
Vira estrela?
Nuvem?
Poeira?
Disco-voador?
Passarinho?
Diz, mãe, o que é que a gente vira?
Faz silêncio, sopra um vento.
É o pai, entrando em casa,
respondendo.

domingo, 5 de maio de 2013

Horizonte, meu amor


Uma fina linha nos separa.
Não sei se vou
nem sei se fico.
Céu acima,
medo adentro
mar abaixo.
Bate um vento,
me desfaço.
Dividida,
entre
pássaro
e peixe.
Entre nuvem,
lodo
e sargaço.
Entre vertigem
e ressaca.
Entre perder as penas
ou morrer afogada. 

sábado, 2 de março de 2013

Do lado de dentro


Afinal, do que sentes falta?
É do bolo saindo do fogo?
Do café doce e ralo de depois?
São dos gritos de mãe a separar teu nome em três pedaços?
É do velho da esquina, sentado, quarando?
Da luz vazada nos combogós?
É do lado esquerdo da cama?
Ou dos que dormem profundamente?

O costume,
esse filho do tempo.
Menino crescido.
Saiu de casa,
fechou a porta
e esqueceu a chave
do lado de dentro

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Causa vida


É como se tivesse engolido umas seis colheradas de cuscuz
O ar não entra nem sai.
Vou morrer.
Eis a nota no jornal de amanhã,
- Morre fulana de tal, de nó no peito e farinha de milho -
Vou morrer com a banalidade de quem mata a fome.

Enquanto os escritórios funcionam
e as pessoas pifam,
enquanto uns falam da vida dos outros
e os outros falam da vida de uns,
enquanto as mães amamentam
e as vacas são sacrificadas,
enquanto a padaria vende pães e doces
e ninguém dá bom dia pra moça do caixa,
eu morro entalada.

Com o pulmão cheio de frase
e a boca vazia de coragem.
De uma hora pra outra,
assim, com esse céu azul e os passarinhos pairando na fiação elétrica,
eu morro
empanturrada de cuscuz, silêncio e dor. 

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Inventário de uma bolha


Sempre tive medo de altura
e fascínio
e delírio
e loucura pelo céu.
Ele sopra,
pego fôlego
e me lanço no ar.
Delicioso vôo,
mas depois quem explode sou eu

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

O último bilhete de Getúlio


Querida,
era doce.
É agosto.
Se fosse menos amargo,
eu tomava todo dia.