quinta-feira, 25 de março de 2010

Ela




Vendo assim até parece que ela é feliz. Soltando pilhérias, olhando de lado, só no requebrado, flor no cabelo, vestido rendado, sorriso no rosto, diz que faz e desdiz. Olhando assim, parece miragem, parece loucura. É tudo verdade. É tudo mentira. É valsa e samba. Porta bandeira, bailarina e meretriz. Um dia quer um filho, no outro quer a rua. Acorda carnaval e dorme quarta feira de cinzas, de brasa, de fogo. Cheia de gosto, para ela faltou o castigo, cercada mimos, sobrou o vício. Dona Dialética não sabe se vai ou se fica, se trepa ou sai de cima, se vai ou racha, se vira patroa ou se é dona de casa. Ela só sabe se questionar.



Para Ela: "Que importa o sentido, se tudo vibra?" Alice Ruiz.


sexta-feira, 19 de março de 2010

Sangria desatada





Passa o dia se debulhando em lágrimas até que alguma coisa mude, até cansar, até dar sono. Muda nada. Engole seco as angústias ou vira um copo d’água num gole só e pronto, passou. Passa nada. Meu Deus, que vontade é essa de abandonar tudo e sair correndo? Em busca de quê? Em direção a quem? Será que nada basta? Sossega, que são três da tarde e ainda há uma vida pela frente. Mentira, o que há pela frente é próxima respiração e muitas aspirações. Na TV, tudo segue feliz. É todo mundo tão bonito e maquiado. Willian Bonner anunciando tragédias com aquela voz de galã, lindo... Fala de novo. Tudo ilusão. E você acha que essa vida é o quê?

Sabe o que você precisa, minha filha? De um batom cor de carmim.



Arrematando: "Não quero nem faca, nem queijo. Quero a fome" Adélia Prado



quarta-feira, 17 de março de 2010

Dá um frio, depois passa.



Eu e ele no verão de 1984



Portas-retrato emolduram a saudade

Você me segurando nos braços,

camisa do Bota em pleno Fla-Flu

Fotografia é assim, minha filha,

dá um frio,

depois passa


Existem dias de um frio intenso

Nublado de lágrimas.

Você se foi em novembro.

No entanto, agosto não passa


Dias de dor nas juntas

Dores adjuntas, anexas, justapostas

e remédios que nem remediam mais


Dias de amargo na boca

O gosto pela vida passou

O doce desandou


Agora é apertar os relógios

e esperar o tempo passar.

Quem sabe um dia a gente possa se encontrar?


Para lembrar:

"Essa Ferida, meu bem

às vezes não sara nunca

às vezes sara amanhã"

Carlos Drummond


sexta-feira, 12 de março de 2010

Entre os dentes





6h e o dia acorda junto com Doralice, que levanta da cama e segue no café com pão, vestido, maquiagem, cabelo e perfume. E lá vai Doralice subindo no salto e descendo a ladeira. Às 7h15 ela está na parada de ônibus. Todos os dias Doralice acha vai encontrar um grande amor, assim, ao acaso e ela até já ensaiou cuidadosamente o diálogo do primeiro encontro “casual”, que iria começar com um “tá quente hoje, né?” e seguir com filmes, música e um pouco de amenidades.


8h e Doralice chega ao trabalho, um sorriso no rosto, o cafezinho de sempre e os sonhos entre os dentes. Doralice é recepcionista, passa o dia entre telefonemas, chamadas de espera, bons dias e boas tardes. Dia desse, um rapaz entrou com um buquê de flores, perguntando: “você é a Doralice?”. Ela abriu um sorriso e antes que respondesse, ele atravessou: “Entrega isso aqui pra Dra. Sônia, por favor”.


18h. Já escureceu e Doralice nem viu o tempo passar, mas a noite está linda e lá vai Doralice descendo do salto e subindo a ladeira. Os dias se passam, os anos também, mas ela segue firme achando que um dia, assim, por obra do acaso vai encontrar no supermercado, na parada de ônibus, na fila do cinema, na padaria, na chamada de espera, um grande amor.



Para Doralice: "Eu bem que avisei a ela. O tempo passou na janela e só Carolina não viu". Chico Buarque.




terça-feira, 9 de março de 2010

Dance me to the end of love





“Vamos fazer um pacto, onde você me entende sem me conhecer, onde você me deseja sem me delinear e assim, sem entrega nem intriga, nos amamos sem se importar com o jantar. Prometa me observar quando me vir passar na rua e me desejar como se nunca tivesse conhecido meu corpo. Sofra com elegância, me chame para dançar e sussurre ao pé do ouvido qualquer coisa que me faça arrepiar”.


Enquanto Carlos escreve as últimas palavras da carta, que vai do buquê de rosas para as mãos de Amélia. Amélia se veste, se pinta, se penteia e desce as escadas. Recebe de mãos trêmulas as rosas e as desculpas de Carlos. Saíam para mais uma noite de declarações, champanhe e Sinatra.


- “Deixa pra ler depois”.


Essa é a vida de Carlos e Amélia, se comem com os olhos, se olham para se descobrir e brigam para mais tarde se amar.



Na vitrola:
"Let me see your beauty when the witnesses are gone,
Let me feel you moving like they do in Babylon,
Show me slowly what I only know the limits of,
Dance me to the end of love"
Leonard Cohen

domingo, 7 de março de 2010

Cuidado com o que você quer





Tudo ainda é pouco. Ela precisa de um pouquinho mais. Só um bocadinho. Um pecadinho que seja. Um pedacinho de aventura. Um jogo de esconde-esconde. Um dia de sol. Uma tarde vazia. Uma noite completa. Um par de olhos fitando os seus. Um par de pernas se enroscando às suas. O que ela quer mesmo é vento no rosto e um sopro suave de brisa no fim de tudo, além de um pai, um amor, uma paixão, um amigo e depois de amanhã, um filho. Será que é pedir muito?


Nas letras: "Sou tão misteriosa que não me entendo" Clarisse Lispector.



quinta-feira, 4 de março de 2010

Não vá se perder por aí




O caminho das lembranças continua fácil. Seduzida por essa facilidade, ela se deixa levar. Nele, habitam músicas, vozes de pessoas amadas e das apaixonantes, piadas cotidianas, cheiros, sabores, paisagens e uma luz, será a do fim do túnel? Ela não sabe. Ela só sabe sentir, andar, chorar, sofrer e sorrir. Talvez daqui há alguns quilômetros esse caminho não seja tão fácil de encontrar. Previsão difícil de se concretizar para quem nasceu com a sina de sentir saudades.


No som, os Doces Bárbaros: "Agora não pergunto mais aonde vai a estrada"



terça-feira, 2 de março de 2010

Procura-se


Há 5 dias em Campinas e algumas horas da entrevista da UNICAMP, com a internet sem funcionar, duas unhas roídas e uma lista de pendências a deliberar, sonhos a martelar e expectativas a cobrar. Esse é o cenário da nova vida, mas há algo nele que não se vê: o frio na atmosfera e na espinha, muitas coisas a resolver em meio a uma vida mal resolvida. Procura-se por entre as ruas um amigo para conversar, soltar uns tragos. Procura-se um mar azul para afogar as mágoas e inquietudes. Procura-se aquela noite, aquela música, aquele carro, naquela esquina. Procura-se uma mãe para pedir, chorar e culpar. Procura-se a felicidade. Talvez eu esteja no caminho certo, talvez eu me perca no meio dele, talvez eu já tenha encontrado. Procura-se a vontade de procurar.

No juízo: A felicidade mora a légua dos meus olhos e a um palmo do meu nariz (Flávio Cavalcanti)