sexta-feira, 12 de março de 2010

Entre os dentes





6h e o dia acorda junto com Doralice, que levanta da cama e segue no café com pão, vestido, maquiagem, cabelo e perfume. E lá vai Doralice subindo no salto e descendo a ladeira. Às 7h15 ela está na parada de ônibus. Todos os dias Doralice acha vai encontrar um grande amor, assim, ao acaso e ela até já ensaiou cuidadosamente o diálogo do primeiro encontro “casual”, que iria começar com um “tá quente hoje, né?” e seguir com filmes, música e um pouco de amenidades.


8h e Doralice chega ao trabalho, um sorriso no rosto, o cafezinho de sempre e os sonhos entre os dentes. Doralice é recepcionista, passa o dia entre telefonemas, chamadas de espera, bons dias e boas tardes. Dia desse, um rapaz entrou com um buquê de flores, perguntando: “você é a Doralice?”. Ela abriu um sorriso e antes que respondesse, ele atravessou: “Entrega isso aqui pra Dra. Sônia, por favor”.


18h. Já escureceu e Doralice nem viu o tempo passar, mas a noite está linda e lá vai Doralice descendo do salto e subindo a ladeira. Os dias se passam, os anos também, mas ela segue firme achando que um dia, assim, por obra do acaso vai encontrar no supermercado, na parada de ônibus, na fila do cinema, na padaria, na chamada de espera, um grande amor.



Para Doralice: "Eu bem que avisei a ela. O tempo passou na janela e só Carolina não viu". Chico Buarque.




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