sexta-feira, 30 de abril de 2010

Disseram






Disseram que a gente não pode se iludir, nem esperar muito dos outros, que paixões são fugazes, que temos que nos acostumar com as dores e que o tempo é o melhor remédio para os males da alma. Falaram que viajar só nas férias, que devemos ter um carro e passar a vida pagando as prestações, além de um apartamento, claro, pois a cidade anda muito perigosa. Inventaram um tal de celular para sermos rastreados do céu ao inferno, ele toca e você pode até não atender, mas o nome está ali, gravado e é de bom tom retornar. Falando nisso, disseram também que quem liga no dia seguinte é Ele e você, na condição de mulher, deve roer as unhas e comer os dedos esperando o telefone tocar. Colocaram-lhe na condição de proletário e isso significa que você deve trabalhar oito horas por dia, duas para almoçar e o resto para se recuperar porque amanhã tudo recomeça. Alguns, os inconformados, se entorpecem nesse espaço de tempo, tragando as angústias numa mesa de bar; outros, os resignados, vão para a igreja e agradecem por tudo, mas há também os que dormem, os que cantam, os que viram travesti, os que assistem ao futebol, os que jogam videogame, os que traem e os que amam. Instituíram o famoso casamento, mas não basta casar, tem que fazer festa com docinho, bolinho e padrinho, e depois ter filhos, de preferência um casal. Sim, e a sua prima que escolheu não casar? Pois é, ela ficou para titia e aquele tio que largou tudo e foi viver de música? É um louco, um sonhador. E os sonhos, então? Sonhar só quando você fecha os olhos e deixa que o inconsciente tome conta do pedaço, numa terra de ninguém, onde não existe loucura nem lucidez, pecado nem perdão. Só não esqueça de programar o despertador, afinal uma hora você vai ter que acordar e cair na real. Eu ainda mato quem inventou essa tal realidade.


Na voz de Gal:

“Eu quero botar fogo nesse apartamento, você não acredita...”
Você não entende nada. Caetano Veloso.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Sem volta



A cabeça sempre andou distante mesmo e o coração naquela base de querer guardar o mundo em mim. Agora só falta o corpo cruzar os mares nunca dantes navegados. E essa sensação de que os horizontes não serão mais os mesmos? E que a viagem é sem volta e sem fim? Eu faço as malas, me desfazendo das coisas inúteis e deixando tudo o que pesa. Levo memórias, deixo saudades, trago lembranças. Se der, envio uns postais. É sempre assim e também pode ser diferente. Mas uma coisa não muda: passo a noite em claro só pensando no que pode ser.


No pé do ouvido:

̋Poeta, palhaço, pirata, corisco, errante judeu
Cantando
Dormindo na estrada, no nada, no nada
E esse mundo é todo meu
Mambembe, cigano
Debaixo da ponte
Cantando
Por baixo da terra
Cantando
Na boca do povo
Cantando˝

Chico Buarque


quinta-feira, 22 de abril de 2010

Pra sempre



Algumas coisas não morrem. Não morre aquele caderno que você deixou com os escritos de uma vida. As letras que você me ensinou não morrem jamais, nem os discos de Chico, nem os sambas de Cartola, nem os poemas de Augusto e Drummond. O seu cheiro ficou pela casa, nas roupas, no frasco do perfume, pelos cantos das paredes e nos corredores da memória. Ficou o seu gesto no corpo de alguém que passa e nunca te conheceu. Ficou a tua impaciência na minha cabeça confusa. Ficou o teu olhar perdido no meu a procurar. Ficou a tua loucura na minha imprudência. Tuas inquietudes, eu herdei uma a uma. Ficou a tua boemia nos bares onde você bebia. Ficou a hipocondria, a cardiopatia e a melancolia na estante da casa, entre os comprimidos que nada servem para as dores que você deixou.


Um conselho:

"(...) E de tudo fica um pouco.
Oh, abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória"

Drummond