terça-feira, 11 de maio de 2010

Seja como for



Adélia Prado, uma encantadora escritora mineira, quieta e cativante como seus semelhantes, que me deu o prazer de nesta manhã apreciar o amor sem rima nem métrica, tal como ele é: bagunçado, despojado, espaçoso, simples e quente como essa xícara de café, vinda de uma casa onde o amor se instalava nas louças, nos sabores, nos lábios, debaixo das cobertas e no pequeno espaço entre os abraços. Vivemos décadas inundados por esse sentimento que até hoje umidifica nossas almas, mas água ele não é.


Corridinho

O amor quer abraçar e não pode.
A multidão em volta,
com seus olhos cediços,
põe caco de vidro no muro
para o amor desistir.
O amor usa o correio,
o correio trapaceia,
a carta não chega,
o amor fica sem saber se é ou não é.
O amor pega o cavalo,
desembarca do trem,
chega na porta cansado
de tanto caminhar a pé.
Fala a palavra açucena,
pede água, bebe café,
dorme na sua presença,
chupa bala de hortelã.
Tudo manha, truque, engenho:
é descuidar, o amor te pega,
te come, te molha todo.
Mas água o amor não é.


Adélia Prado

sábado, 8 de maio de 2010

Acertando os ponteiros



Canoa Quebrada (CE) - Onda Latina



Não há espaço para reflexões. Você está é precisando pensar menos e viver mais. Sigamos, que os ponteiros são mais incansáveis do que as nossas pernas. O tempo passa numa velocidade estonteante e a felicidade então, essa é uma brisa... Tão intensa quanto passageira e nem todos conseguem senti-la, principalmente os que estão muito preocupados com o sentido das coisas. É meio dia, você está na flor da idade e sozinha, não menos que na última madrugada, quando estava rodeada de gente. Escute, você sempre estará só. Terá encontros pela vida, alguns durarão poucos segundos, outros, décadas e haverá os que completarão bodas, mas se prepare para os desencontros seguidos de lágrimas, risos, rezas, apertos e alívios. Talvez, compreender esse pequeno detalhe seja a chave para tudo. Mas você não entende que a transitoriedade é a tônica do nosso tempo. Quer ser livre se prendendo às paixões. Ah! Como você inveja os apaixonados em seus mundinhos cor-de-rosa, ouvindo suas bossas e cantarolando que é “impossível ser feliz sozinho”. Concentre-se no que é possível e vá dormir, sonhando comigo e achando que amanhã será outro dia.



Canção de ninar:


Pra que sofrer com despedida?
Se só vai quem chegou
E quem vem vai partir
Você sofre, se lamenta, depois vai dormir.
Cartão Postal – Rita Lee.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Como você anda?



Distrito de Joaquim Egídio - SP


Eu andei 2.800 km até aqui. Isso não significa que eu já cheguei aonde eu quero. Mas vamos lá, hoje eu ando frequentando um curso, pintando umas aquarelas, escrevendo umas bobagens e dizendo outras. Aliás, eu ando com um nó na garganta e uma paixão retumbante no peito.
Eu também ando pedalando por aí. Às vezes me falta o freio. Às vezes é disso o que eu preciso. Às vezes me falta ar. Eu respiro fundo, não adianta. Pior é quando falta estômago. Essa é a ânsia de estar vivo, girando nessa roda viva, sem poder descer, sem poder parar.
O fato é que aos 24 anos eu perdi um grande amor, desde então eu ando procurando um caminho, uma rota, uma direção e, sobretudo, um sentido para isso tudo.
Nessas horas eu queria tanto uma religião...


... Mas eu prefiro a poesia:

"Olho em redor do bar em que escrevo estas linhas.
Aquele homem ali no balcão, caninha após caninha,
nem desconfia que se acha conosco desde o início
das eras. Pensa que está somente afogando problemas
dele, João Silva... Ele está é bebendo a milenar
inquietação do mundo".

Mário Quintana