terça-feira, 11 de maio de 2010

Seja como for



Adélia Prado, uma encantadora escritora mineira, quieta e cativante como seus semelhantes, que me deu o prazer de nesta manhã apreciar o amor sem rima nem métrica, tal como ele é: bagunçado, despojado, espaçoso, simples e quente como essa xícara de café, vinda de uma casa onde o amor se instalava nas louças, nos sabores, nos lábios, debaixo das cobertas e no pequeno espaço entre os abraços. Vivemos décadas inundados por esse sentimento que até hoje umidifica nossas almas, mas água ele não é.


Corridinho

O amor quer abraçar e não pode.
A multidão em volta,
com seus olhos cediços,
põe caco de vidro no muro
para o amor desistir.
O amor usa o correio,
o correio trapaceia,
a carta não chega,
o amor fica sem saber se é ou não é.
O amor pega o cavalo,
desembarca do trem,
chega na porta cansado
de tanto caminhar a pé.
Fala a palavra açucena,
pede água, bebe café,
dorme na sua presença,
chupa bala de hortelã.
Tudo manha, truque, engenho:
é descuidar, o amor te pega,
te come, te molha todo.
Mas água o amor não é.


Adélia Prado

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