quarta-feira, 28 de julho de 2010

Sem freio

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Café com pão cronometrado.
Eu pensava que ia ser diferente, mas não é.
Diferente são as lembranças e as caronas no Santana vermelho com aquele homem ao volante.
Tão distinto. Até ontem ele se vestia assim, de mocassim, ornando com a camisa pólo, bermuda e a clássica capanga debaixo do braço, que quando ficou démodé, deu lugar a uma discreta carteira.
E a rotina era movimentada.
Chegava da feira e saía de novo. Voltava da rua e partia de novo.
Até ontem ele fazia isso, mas naquele dia foi diferente.
Chegou de vermelho, imponente e buzinando. Todo mundo na rua olhando e eu reinando, entrando no carro indiferente.
Íamos inaugurar o possante, percorrer as ruas, a orla, os bares, as bancas de revista, balas e quadrinhos.
Velocidade, vento no rosto, gargalhadas a mil.
Depois me devolvia em casa e partia para a rotina de idas e vindas.
E a vida era esperar aquele ser encantado surgir e me levar para ver o tempo passar da janela daquele carro.
E a vida continua sendo de espera.
(...)
Só não se sabe de quê.
Eu pensava que ia ser diferente, mas não é.
E agora, José?
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segunda-feira, 19 de julho de 2010

Eu, você, nós dois

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Meu querido,

Mande uma canção que me faça sair daqui. Você sabe, eu não consigo manter os pés no chão por muito tempo.
Depois eu volto, ou melhor, voltamos, mas criemos uma interseção.
Eu, você, vinho, letra, melodia e o resto na borda.
É tão simples e é tão complicado, né? Dançar conforme essa música pede equilíbrio e, você sabe, esse não é o meu forte baby.
I know that´s the way e você precisa saber de mim.
Vamos tomar um sorvete ou sair por aí sem destino para o acaso nos juntar. Eu de vestido florido e flor no cabelo. Nas minhas mãos, as suas e pronto, fizemos a primavera.
Não existe casal de propaganda mais feliz que nós dois. Vamos vender felicidade em trinta, sessenta e noventa sem juros. Quando ficarmos ricos damos de graça e quando o amor não for mais um sonho de consumo nós fabricamos a amizade.
Simples, né? Oh! Darling, please believe me.

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sexta-feira, 9 de julho de 2010

As rosas não falam

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Primavera em Paris. A cidade se transforma num canteiro de flores, exalando um charme que não existe em lugar algum do mundo e ela ali, uma anônima em um metrô lotado segurando o que não chegava a ser um buquê. Era um apanhado de quatro ou cinco rosas. Comecei a examinar o ambiente ao redor e me deparo com a cena, então inicio mentalmente uma série de questionamentos. Seriam as rosas um pedido de desculpas? Um galanteio? Ou ela apanhou na rua, na falta de um cavalheiro para lhe cortejar? Mas ela estava com uma cara, coitada, imersa naquela elegante solidão francesa. Cada um com a sua privacidade e ninguém se olha e ninguém ouse se tocar. Foi quando de repente alguém esbarrou nela e uma das rosas caiu no chão do metrô. Ela ficou desolada, apanhando as pétalas, tentando reorganizar, mas quanto mais mexia mais inconsolável ficava. Era uma mulher e mais parecia uma menina com o brinquedo quebrado. Olhava para as rosas e se lamentava, desviava o olhar e olhava novamente, e ficava nesse jogo. Eu se pudesse ajudar, mostraria àquela triste dama francesa uns versinhos de Cartola: “Queixo-me as rosas, mas que bobagem, as rosas não falam. Simplesmente as rosas exalam o perfume que roubam de ti”.
Eu desci na minha estação e ela continuou na solidão daquele subsolo frio, povoando a minha imaginação.
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quinta-feira, 8 de julho de 2010

Secador

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Enxuga as gotas que saem do olhar
É chuva
Esfrega
Que há de secar
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sexta-feira, 2 de julho de 2010

Dizem, disseram, vão dizer.



Você compra a passagem, faz as malas, bota um brilho no olhar, espalha aos quatro cantos que vai sair por aí e de repente ouve aquele famoso comentário: “Olha, você vai, mas os problemas vão com você”. Que mania feia essa das pessoas de repetir as coisas que os outros dizem como se fossem verdades, mesmo quando é tudo mentira. Pois vou lhe dizer uma coisa. Eu não sei se os problemas ficam ou dão excesso de bagagem. O que sei é que as idas e vindas reservam um terceiro problema: a alma mambembe, um comichar nas pernas, uma inquietude na alma, um “eu não sou daqui nem vim pra ficar”. É o bicho da curiosidade a lhe morder dia e noite. E os olhos, olhinhos inquietos querem mais, pedem novos verdes, cores de Almodóvar e aquelas que a gente nem sabe o nome. E o paladar exige o inusitado, mesmo que seja amargo, mais doce é a descoberta. E o ouvido descobre a musicalidade dos sotaques e o ritmo que emana das cidades. E os músculos incansáveis querem dobrar as esquinas sem saber para onde vão, aonde vão chegar e o que vão encontrar. Aliás, o que menos importa é chegar. E o coração sai do peito, pula a janela, corre, brinca, dança e não cai, nem cansa. Depois volta pra casa, morto, exausto, querendo colo, leite quente, beijos e abraços. E os problemas? Manda uma carta, um telegrama ou um postal dizendo que está tudo bem e que daqui a pouco você volta, mas que em breve você deve partir de novo não se sabe pra onde. Só para ter o prazer de vê-los bem pequenos, de longe.


Na Cabeça:

"O melhor lugar do mundo é aqui e agora" (Gilberto Gil)