sexta-feira, 9 de julho de 2010

As rosas não falam

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Primavera em Paris. A cidade se transforma num canteiro de flores, exalando um charme que não existe em lugar algum do mundo e ela ali, uma anônima em um metrô lotado segurando o que não chegava a ser um buquê. Era um apanhado de quatro ou cinco rosas. Comecei a examinar o ambiente ao redor e me deparo com a cena, então inicio mentalmente uma série de questionamentos. Seriam as rosas um pedido de desculpas? Um galanteio? Ou ela apanhou na rua, na falta de um cavalheiro para lhe cortejar? Mas ela estava com uma cara, coitada, imersa naquela elegante solidão francesa. Cada um com a sua privacidade e ninguém se olha e ninguém ouse se tocar. Foi quando de repente alguém esbarrou nela e uma das rosas caiu no chão do metrô. Ela ficou desolada, apanhando as pétalas, tentando reorganizar, mas quanto mais mexia mais inconsolável ficava. Era uma mulher e mais parecia uma menina com o brinquedo quebrado. Olhava para as rosas e se lamentava, desviava o olhar e olhava novamente, e ficava nesse jogo. Eu se pudesse ajudar, mostraria àquela triste dama francesa uns versinhos de Cartola: “Queixo-me as rosas, mas que bobagem, as rosas não falam. Simplesmente as rosas exalam o perfume que roubam de ti”.
Eu desci na minha estação e ela continuou na solidão daquele subsolo frio, povoando a minha imaginação.
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2 comentários:

  1. Muitas imagens, muitas imagens... Mas, se ela não se comover com o Cartola, manda na sequência um Serge Gainsbourg...

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  2. "Mas ela estava com uma cara, coitada, imersa naquela elegante solidão francesa. Cada um com a sua privacidade e ninguém se olha e ninguém ouse se tocar."

    Descrição perfeita.

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