terça-feira, 31 de agosto de 2010

Eles não entendem nada

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Ela reclama de tudo. É o calor. É o frio. É a rotina. É o caos. É o tráfego. É o tráfico

Tanta gente desinteressante na fila do banco. Cadê os globais? Não é assim na novela.
E essa história de arrumar amor no supermercado?
Conto de fadas moderno, meu bem. Na rua a gente só encontra esse povo que veio de algum lugar e vai sei lá pra onde. Todo mundo ocupado demais pra conhecer alguém por acaso, mas olham e como olham.
Enquanto isso, na sessão de frios:
- Moço. 3 kg de paciência, por favor.
- O quê, senhora?
- Meio quilo de carne moída, moço.
Moída por dentro e por fora, sangrando, exposta na prateleira. Esperando, esperando e nada. Passou da validade. É lixo. Joga fora.
“Ah se eu tivesse quem bem me quisesse. Esse alguém me diria: desiste, essa busca é inútil. Eu não desistia”.
Desculpas a Betânia.
“Eu quero tocar fogo nesse apartamento, você não acredita”.
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quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Era uma casa

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Eu conheço bem essa casa, que um dia foi lar, mas ultimamente tenho me perdido tanto ao entrar. É a memória, esse labirinto do Minotauro com seus corredores que conduzem à ambientes cheirando a infância densa e feliz, e que cheiro é esse?


É daquele bolo que se fazia aos domingos, dos cremes dela, do perfume dele, do almoço para um batalhão e hoje, mofo, o cheiro do abandono. É a umidade. A saudade é árida e o passado é úmido, mesmo que um dia tenha tido o perfume do jasmim que crescia forte e vistoso como tudo o que ela colocava a mão. Ele já não existe mais. Foi cortado pelo pé. Talvez seja por isso que não se vê mais esperanças no jardim.


Hoje o que existe é o passado pregado naquelas paredes que alimentam cupins com lembranças e um futuro que poderia ter sido e não foi. Paredes curiosas e fofoqueiras, atualmente esquizofrênicas, que já não escutam mais nada, só o eco de conversas antigas, mas que um dia ouviram tanta coisa: gargalhadas, choros, gritos, discussões, vários “eu te amo”, outros “eu te odeio”, os discos de Fábio, as divas Betânia e Alcione berrando entre Robertos e Vinícius, Teté e Aninha na onda do Dominó, eu e Thiago balbuciando as primeiras palavras e hoje, silêncio.


Pausa. Nunca vi um silêncio falar tão alto. Pausa de novo. Por que continuar cavando um passado que só te desgasta as unhas? É preciso continuar ou enlouquecer. Eu escolhi (acho) a primeira opção, ele, a segunda. Ou seria o inverso?


E o castelo estilo anos 70, erguido na onda da arquitetura moderna e idealizado numa mesa de bar pelo famoso Expedido Arruda, se transformou num grande caixão. Todos estão mortos, o que fomos morreu e ainda tem os não sabem o que fazer com o corpo. Ele pesa tanto, como se não bastasse, é preciso carregá-lo pra lá e pra cá, levá-lo ao trabalho, fazer viagens, vesti-lo, despi-lo, como se nada tivesse acontecido, porque é preciso ganhar dinheiro, gastar, amar, se divertir e finalmente viver, mesmo que você não se sinta tão vivo, mesmo que você se depare com um pedaço de si no jardim, outro no quarto, fragmentos na sala, braços na piscina, pernas nas escadas e haja fígado para seguir, porque o coração... Ah, o coração, esse enfartou num amargo novembro.


Visito os fatos, percorro as fotos. Olho para aquela menina que está nos teus braços e pergunto: afinal, quem é você?

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segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Divino maravilhoso

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De vez em quando elas precisam se encontrar pra organizar as idéias, sabe como é? Pra falar o que só falam para o espelho e olhe lá.

Tão inquietas e nem sabem que tudo é breve. Melhor que não saibam mesmo.

Algumas verdades não devem ser ditas.

Já as confidências, elas soltam na mesa sem pudor.

Entre brindes e tragos destilam desejos, fermentam agonias.

Mais uma dose de cumplicidade. É claro que eu tô afim.

E a madrugada se passa, como tudo nesse mundo.

Só não passa a vontade de falar de si, do outros, do mundo e de tudo.

E na vitrola o disco certo roda, como elas por aí.

Muda-se a música, mudam de par, falam dos pares, dos olhares, dos pesares, mas uma coisa é certa: elas adoram dançar.



Entre palavras, na voz de Gal (1969):

“Atenção ao dobrar uma esquina, uma alegria, atenção menina”.

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sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Sobre a gula

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Mossoró - 2008
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A gente tem que entender que o encanto é breve. Sabe aqueles dias? Aquela tarde? Aquela frase? Pronto, passou, ficou num lugar chamado memória. Um baú que se abre com fotografias, cheiros, palavras, sabores... Expectativas à parte, não pense que as coisas vão se repetir porque nem mesmo ninguém se repete. O instante é do segundo e atire a primeira pedra quem nunca dormiu com fome e acordou com fastio.
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segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Eu não sou daqui.

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Ciclovia, Cidade Universitária - Barão Geraldo.


Cadê aquela saudade retumbante no peito, eu pergunto, cadê?
Parecia que ia morrer se não pegasse um avião, morre nada.
E o frio, que antes doía na espinha, hoje faz afago na carne. O nome disso é costume.
Eu já conheço essas esquinas e elas já conhecem os pneus da minha bicicleta. Subindo e descendo ladeiras. Pra quê tanta volta, meu deus?
O bom mesmo é se perder, mas eu preciso me encontrar.
Eu não sei do lado daí, quer dizer, eu sei e é lindo, mas do lado de cá, eu vejo tardes ensolaradas com uma luz que transpassa as árvores e faz desenhos no chão com pétalas colorindo o asfalto de todas as cores.
Uma verdadeira passarela.
Eu vejo o charme dos estudantes baronenses desfilando, pedalando e levitando por aí, tomando vinho no gargalo na porta do supermercado.
Eles e elas. Barões e Baronesas. Sobem e descem a ciclovia em direção à Unicamp portando livros, cigarros e sonhos na mochila, e sabe lá quando essa bagagem vai deixar de pesar.
Eu ando conhecendo um povo que canta como eu e fala a minha língua, apesar dos chiados e dos “erres” retroflexos destoando ao meu sotaque carregado de xaxado.
E a gente se comunica em música e ninguém desafina.
Eu sei que tudo isso é bom, mas o meu coração é do mar e tem sede de brisa.

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