quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Era uma casa

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Eu conheço bem essa casa, que um dia foi lar, mas ultimamente tenho me perdido tanto ao entrar. É a memória, esse labirinto do Minotauro com seus corredores que conduzem à ambientes cheirando a infância densa e feliz, e que cheiro é esse?


É daquele bolo que se fazia aos domingos, dos cremes dela, do perfume dele, do almoço para um batalhão e hoje, mofo, o cheiro do abandono. É a umidade. A saudade é árida e o passado é úmido, mesmo que um dia tenha tido o perfume do jasmim que crescia forte e vistoso como tudo o que ela colocava a mão. Ele já não existe mais. Foi cortado pelo pé. Talvez seja por isso que não se vê mais esperanças no jardim.


Hoje o que existe é o passado pregado naquelas paredes que alimentam cupins com lembranças e um futuro que poderia ter sido e não foi. Paredes curiosas e fofoqueiras, atualmente esquizofrênicas, que já não escutam mais nada, só o eco de conversas antigas, mas que um dia ouviram tanta coisa: gargalhadas, choros, gritos, discussões, vários “eu te amo”, outros “eu te odeio”, os discos de Fábio, as divas Betânia e Alcione berrando entre Robertos e Vinícius, Teté e Aninha na onda do Dominó, eu e Thiago balbuciando as primeiras palavras e hoje, silêncio.


Pausa. Nunca vi um silêncio falar tão alto. Pausa de novo. Por que continuar cavando um passado que só te desgasta as unhas? É preciso continuar ou enlouquecer. Eu escolhi (acho) a primeira opção, ele, a segunda. Ou seria o inverso?


E o castelo estilo anos 70, erguido na onda da arquitetura moderna e idealizado numa mesa de bar pelo famoso Expedido Arruda, se transformou num grande caixão. Todos estão mortos, o que fomos morreu e ainda tem os não sabem o que fazer com o corpo. Ele pesa tanto, como se não bastasse, é preciso carregá-lo pra lá e pra cá, levá-lo ao trabalho, fazer viagens, vesti-lo, despi-lo, como se nada tivesse acontecido, porque é preciso ganhar dinheiro, gastar, amar, se divertir e finalmente viver, mesmo que você não se sinta tão vivo, mesmo que você se depare com um pedaço de si no jardim, outro no quarto, fragmentos na sala, braços na piscina, pernas nas escadas e haja fígado para seguir, porque o coração... Ah, o coração, esse enfartou num amargo novembro.


Visito os fatos, percorro as fotos. Olho para aquela menina que está nos teus braços e pergunto: afinal, quem é você?

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Um comentário:

  1. como diz um amigo meu, estamos no meio da guerra, leve só o que conseguir.é melhor cortar a perna que morrer da necrose.

    e tenho que dizer que você aqui perto melhora tanto, mas se fosse sempre será que a gente notaria?

    um beijo, naza.

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