terça-feira, 14 de setembro de 2010

Dele para ela

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Já fomos mais belos, menos torpes, menos ácidos, bem mais doces, já sofremos menos por amor, já fomos mais capazes de perdoar, mais amigos, mais honestos. Já fomos mais em tudo. Éramos jovens e achávamos, inocentes, que as rugas não chegariam nunca. Era o mar a nos bronzear a pele, a nos diluir por completo, nos esvaziando e nos preenchendo, apequenando esses semideuses feitos de razão, paixão, ossos, sangue e carne. Felizes nunca fomos por completo, sempre faltou algo que não se sabia classificar, medir, ordenar ou pronunciar. Só se sabia sentir e seguíamos ignorantes do que sentíamos, comprando mais e mais, perguntando sem resposta, procurando, esperando, querendo e fazendo amor.
E eu te pergunto, se viver é isso, o que foi que te faltou?
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sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Que poeira leve

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Escher


Quando foi mesmo que eu adquiri esses medos? Eu não lembro.

Alguma coisa se acumulou em mim feito poeira no canto da parede. Tão inofensiva, cultivada a base da preguiça de varrer. Finas partículas que se espalham pela casa e convivem com o ar. Respiramos e colocamos para dentro dos pulmões. Quando percebemos, sacudimos as mãos, o corpo, mas ela não sai.

Nem no espirro ela sai.

Viramos poeira.

Eu tenho mais medo de sentir medo do que dos meus próprios medos.

O problema é que o passado não passou em mim. Eu tô cansada desses velhos medos.

Eu quero um medo novo, sem gosto de infância.

Um medo que não me peça colo de pai nem de mãe.


Para aliviar:

"Na vida, quem perde o telhado em troca recebe as estrelas"

Tom Zé

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