quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Para você

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Eu que tenho tanto a te dizer, quando te vejo, engulo tudo, palavra por palavra num gole só e às vezes finjo que nem te conheço. Eu que ensaio há dias um discurso, esqueço tudo e me perco dentro de um poço de medo e orgulho.

Já pedi tanto para o acaso nos juntar, numa esquina, num posto de gasolina, numa mesa de bar, aqui, acolá, algures, mas não adianta, parece que estás do outro lado do mundo, ou um segundo antes de eu chegar. Também perdi a conta de quantas vezes deixei a porta aberta para que você entrasse sem bater, nem avisar.

Parece que só te encontro quando acho que te pedi. Será que o seu tempo é sempre o passado? Aí fica complicado, porque você muda de nome e vira saudade e saudade dói, e eu não tenho nervos de aço.

Sigo te procurando pelas rodas de amigos, entre os entes queridos ou em meio a uma multidão de desconhecidos, mesmo sabendo que podes estar a um palmo do nariz. Por fim, peço encarecidamente para que da próxima vez que o destino nos unir, não diga nada, se você vai, quanto tempo ficará, ou quando voltará. Peço somente que não te deixe voar tão longe, Dona Felicidade, sua andorinha errante.

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sexta-feira, 1 de outubro de 2010

No avarandado

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Tu chegaste com a primavera. Nem a cigarra, nem a formiga. Olha como tudo se encaixa. Daqui eu sinto o sopro que se estenderá até o verão. Aposento as meias fio 80, agora as pernas ficam nuas. A sandália rasteira balança a rede, mas quem me embala é Cortázar. Fazendo o jogo da amarelinha me deparo com a casa onde se diz: “E, por se ter saído da infância, esquece-se de que, para alcançar o céu é preciso ter, como ingredientes, uma pedrinha e a ponta de um sapato”.

O vento de setembro sopra a poeira do amor. Não importa se o céu não está azul, que tempo bom. E no jardim, ela, a es-pe-ran-ça. Entre flores e espinhos. Eu sinto que ela veio pra ficar.

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