terça-feira, 23 de novembro de 2010

Banguela

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Vestido listrado, sapato vermelho, cabelo amarelo e dois olhos de jabuticaba fitando os meus. Sozinha e emancipada, ela pula entre os corredores, arrastando seu carrinho de compras pra lá e pra cá. “Meu carro é vermelho, não uso espelho pra me pentear”. Nesse embalo, chega à sessão de frios e dá uma rabeada, vira o nariz empinado, olha pra mim de soslaio e segue indiferente pelo corredor de frutas.
Parada, com a boca aberta e o olhar hipnotizado, eu fico entre o doce e o amargo de ver cada vez mais longe esse pequeno retrato de mim.

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quarta-feira, 17 de novembro de 2010

O que fica

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Dois anos se arrastam para quem acompanha a marcha lenta dos ponteiros. Pois bem Novembro, novamente te visito e como sinto medo de ti, de mim, de nós.


Dezembro surge na linha do horizonte, mas não dá pra enxergar a um palmo do nariz. Não, não é o astigmatismo. Não é o cansaço. É saudade mesmo. Todo mundo diz que passa. O que passa eu não sei. Eu só sei dizer o que fica.


Fica uma vontade imensa de voltar um segundo atrás e dizer o que não foi dito e abraçar mais um pouco e amar mais um tanto. Fica um cansaço de lembrar mais uma vez tudo de novo, feito disco arranhado. Fica um sono, uma vertigem, uma preguiça de olhar pra frente. Ficam cenas de um filme assistido por quem não podia fazer nada.


Fica a voz da mãe, passando a mão da cabeça e dizendo que a vida continua, minha filha. Disso ninguém duvida, mas também ninguém diz como e porque continuar.



Continuando:

"Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes"
Álvaro de Campos

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