quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

A flor e o espinho

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Se fosse só saudade eu folheava os álbuns de fotografia até gastar os dedos, até secar os olhos e dormir de cansaço. Se fosse só tristeza, eu ligava a vitrola, deixava as divas e os musos gritando para as paredes uma alegria em dó maior. Se fosse só confusão, eu saía por aí descendo de banguela as ladeiras da cidade, deixando a cabeça voar junto com os cabelos, contra o vento, contra tudo, contra todos. Se fosse culpa de alguém, mas não é.
Não é e eu não sei o que é.
Não importa.
É fim de ano, ninguém pensa em nada. Faltam 10 minutos pro mundo se acabar. Todos entram na euforia do verão, depois vem o carnaval e eu só me lembro daquele sambinha “tire o seu sorriso do caminho, que eu quero passar com a minha dor”.
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terça-feira, 21 de dezembro de 2010

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Adelaide,


Tu, que sonha em ser a Terezinha do Chico, depois chora ouvindo Roberto e enxuga as lágrimas com a barra do vestido, mostrando as coxas, borrando o rímel.

Tu, que sofre e sente saudade, e gargalha e dança em cima da faca.

Tu, que enche o cabelo de friso, nem liso, nem cacheado.

Nem bonita nem feia nem gostosa.

De tarde faz as unhas de vermelho, maldiz os outros e conta da vida pra manicure, pra desconhecida do lado, pra quem quer que seja.

De noite, novela, cama e solidão.

Acorda pra Jesus, Adelaide.

Jesus é o porteiro do condomínio, mais novo, mais pobre, mas, homem.

Jesus não te ama, mas te come com os olhos.

Só que Adelaide sofre de ânsia e insônia, toma dramin, passa da hora, passa do ponto.

É meio dia e o tempo passou despercebido.

O leite transbordou, o café esfriou, a louça quebrou.

Estilhaços.
Respira fundo, junta os cacos e faz um belo mosaico.

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