terça-feira, 21 de dezembro de 2010

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Adelaide,


Tu, que sonha em ser a Terezinha do Chico, depois chora ouvindo Roberto e enxuga as lágrimas com a barra do vestido, mostrando as coxas, borrando o rímel.

Tu, que sofre e sente saudade, e gargalha e dança em cima da faca.

Tu, que enche o cabelo de friso, nem liso, nem cacheado.

Nem bonita nem feia nem gostosa.

De tarde faz as unhas de vermelho, maldiz os outros e conta da vida pra manicure, pra desconhecida do lado, pra quem quer que seja.

De noite, novela, cama e solidão.

Acorda pra Jesus, Adelaide.

Jesus é o porteiro do condomínio, mais novo, mais pobre, mas, homem.

Jesus não te ama, mas te come com os olhos.

Só que Adelaide sofre de ânsia e insônia, toma dramin, passa da hora, passa do ponto.

É meio dia e o tempo passou despercebido.

O leite transbordou, o café esfriou, a louça quebrou.

Estilhaços.
Respira fundo, junta os cacos e faz um belo mosaico.

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2 comentários:

  1. A gente parece um grande mosaico, mesmo...
    Como um monte de fragmentos e pessoas e lembranças que a gente vai guardando.
    Fica até difícil saber quando a gente, é a gente mesmo.

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  2. Eita Adelaide, tão comum, tão peculiar, tão mulher... adorei o texto,cat!

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