domingo, 18 de dezembro de 2011

Vermelho balão

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O amor tem olhos grandes, nariz de palhaço e orelha de abano. Ele sofre nas tardes de domingo. Rói as unhas, depois pinta de vermelho. Dá com uma mão e tira com a outra. O amor não fala inglês, mesmo sendo uma exigência moderna.

Viram-no num 1,99 na rua da república.

O amor em trinta, sessenta e noventa sem juros e sem entrada, com a primeira só para o carnaval. O amor não é cool. Não é Cult. Não se acha bonito. Não gosta de atender telefone. Ele não assistiu àquele filme, não sabe jogar futebol nem nunca ganhou um troféu. É recalcado. Psicótico, neurótico. Todo errado.

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sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Conversa mole

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Dora come com as mãos

rói as unhas

e lambe os dedos.

Carlos come com os olhos.

Dora tem olho grande.

Carlos tem fastio.

Ofélia morreu.

E esqueceram de anotar a receita pra essa vida.

Tarde demais

O bucho cheio de paixão

e ainda dizem que amor não enche barriga.

Assim ninguém se satisfaz.

E Maria no banho,

ainda no banho, Maria?

Assim a coisa desanda.

Tanto faz se a fome é uma coisa assim, universal.

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quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Submarina

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Adriana Varejão


Quem mergulha fundo demais pode não voltar.

Eu conheço um monte dessas histórias de profundidades inimagináveis.

Pedir açúcar na vizinha também não é raso nem fácil.

Eu tenho medo quando alguém toca a campainha e invade o meu canto sem avisar - pra não dizer eu tenho pânico.

Respiro fundo, tomo fôlego. A xícara na mão e a vontade de sair correndo até arrancar o chaboque do pé.

A mãe diz: "é frescura dessa menina esquisita"

E assim fui aprendendo que esquisitice é ter medo de gente.

Mas de mar eu não tenho

É por isso que eu mergulho fundo.

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terça-feira, 15 de novembro de 2011

(...)

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Jozé,


Nunca mais nos vimos nem ouvimos a voz um do outro. Por onde você anda, eu não sei. Muito menos seu paradeiro. Com licença ao calendário, mas não existe maneira mais precisa de medir o tempo do que sentir que a dor da saudade já passou. Se o mundo desse voltas como um relógio nós estaríamos a exatos 4 dias de nos perder por aí.

Se viver é se despedir no tempo, eu fico pensando quanto tempo a gente desperdiça com outra coisa que não seja o amor.

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segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Lá fora está chovendo

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Gotas caem incessantemente na nossa cabeça, os carros pifaram junto com todos os eletrodomésticos e um exército de formigas corre afoito ninguém sabe pra onde. Ninguém sabe porquê.

Eu queria que alguém me explicasse a pressa, se um dia todos os ponteiros vão parar.

O mundo virou e daí?

E daí? Se a gente vai se topar naquela esquina e descobrir que pra viver basta respirar e, quando a nossa respiração se encontrar, inalaremos o mesmo e delicioso ar que estufa o peito, faz o sangue ferver nas veias e sopra ao pé do ouvido que respirar é muito pouco. É necessário perder o fôlego, o medo e o freio.

É preciso se sentir vivo pra morrer em paz.

O caos não será mais da nossa conta.

O planeta de cabeça pra baixo e nós a girar, que maravilha.

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sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Todo mundo vai

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Rivane Neuenschwander, "Um dia como outro qualquer", 2008

Eles correm porque todo mundo corre

e a pressa virou o tempo da pretensão.

O relógio,

pernas inquietas que tremulam sem parar

A mulher do carro ao lado

poderia ser só a mulher do carro ao lado

se a loucura não fosse universal

O sinal abre, o sinal fecha

A regra é não se olhar

Porque o constrangimento é universal

O sinal abre

Seguimos anônimas e certas

para o mesmo e inevitável lugar.

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