quarta-feira, 30 de março de 2011

Veja você

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Daqui eu vejo tudo se desmoronar, a começar por esse corpo cansado de fugir do tempo.

As certezas todas estão virando pó e o amor respira com dificuldade por entre os escombros.

O cotidiano se agarra as últimas vigas que também cairão junto com teto sobre a nossa cabeça.

Talvez tudo pegue fogo ou a água suba pelos joelhos.

O 193 chamou, chamou e ninguém atendeu.

Não tem ninguém do outro lado da linha? Do outro lado do mundo? Do outro lado da rua?

O outono chegou e o sol dos trópicos continua uma brasa, como se nada tivesse acontecendo.

E como se nada tivesse acontecendo, eu fecho a porta e saio para comprar o pão e o pó de café.

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sexta-feira, 11 de março de 2011

Melhor viver, meu bem

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"Todo dia ela faz tudo sempre igual"
Se Chico viu poesia no cotidiano, quem és tu para desdenhar o feijão com arroz de todo dia?


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Nervosos e inquietos, eles pensam, confabulam e maquinam uma explicação plausível e convincente para o mistério do planeta. Questionam sobre o começo de tudo e perdem noites a fio se perguntando quando isso tudo vai acabar.

Ansiosos, com a cabeça aqui e o coração acolá, eles acham que a poesia só está nas entrelinhas dos livros, que a beleza mora nas capas das revistas e que o amor é coisa de filme de ficção e além do mais existem as contas, o trânsito e o rolo compressor do cotidiano a esmagar o romantismo feito latinha de cerveja.
E na boca fica o gosto amargo da ressaca de viver reclamando e reclamando a gente se entende na fila do banco, na parada de ônibus, na sala do médico.
E enquanto eles pedem ao doutor uma receita para a felicidade, há quem bote a mão na massa e errando o ponto, desandando daqui, queimando de lá, aprenda as delícias de fazer do agora o melhor pedaço do mundo.
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sexta-feira, 4 de março de 2011

Um certo carnaval

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Chega feito arrepio percorrendo as costas,
ouriçando os pêlos, sacudindo os nervos, tresloucando os zelos sem a gente mandar.
Vem suspendendo as saias, causando alvoroço.
É um rebuliço, ele deixa o mundo de pernas pro ar.
E haja purpurina e haja serpentina e haja neosaldina pra gente tomar.
E não avisa ao vento, não respeita o tempo, não bate na porta nem pede licença pra se instalar.
Não, ele não se instala, fica por um tempo, fazendo algazarra, bagunçando a casa, lançando um perfume de saudade no ar.
Mas há de ter cuidado, não se apaixone, não se engane, não dê vexame, ele não veio pra ficar.

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