quarta-feira, 20 de julho de 2011

Falta de tato

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Quando pequena, sempre rasgava a meia calça com as cutículas afiadas, as unhas roídas e as mãos desajeitadas. Além das condições físicas, havia a falta de jeito nato e a loucura feminina de se achar feia e se desmontar por inteiro a cada visita ao espelho.

Eram fininhas as meias brancas e na coleção havia também as de bolinhas, as beges, as rendadas, as listradas e uma série que oscilava entre o branco e o rósea clarinho. Todas delicadas demais para tanto alvoroço.

Bastava puxar um fio e a desgraça estava feita.

A infância passou, mas a falta de tato com as coisas delicadas continua a mesma. Os bibelôs chacinados, as xícaras de porcelana e as taças de cristal são testemunhas oculares dessa triste constatação. A calma também deve ter muito a dizer.

Ela que é mais um estado de vida do que um sentimento. Tão frágil, tão susceptível as notícias nos telejornais, aos aborrecimentos do trabalho, ao tormento do ciúme, a casa que está uma bagunça, ao engarrafamento, as oscilações hormonais, a calma se esgarça nessas mãos indelicadas. Basta um fio e a desgraça está feita.

E não tem remédio, não tem remendo, mas quase sempre tem uma outra na gaveta tecendo uma nova manhã.

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