quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Causa vida


É como se tivesse engolido umas seis colheradas de cuscuz
O ar não entra nem sai.
Vou morrer.
Eis a nota no jornal de amanhã,
- Morre fulana de tal, de nó no peito e farinha de milho -
Vou morrer com a banalidade de quem mata a fome.

Enquanto os escritórios funcionam
e as pessoas pifam,
enquanto uns falam da vida dos outros
e os outros falam da vida de uns,
enquanto as mães amamentam
e as vacas são sacrificadas,
enquanto a padaria vende pães e doces
e ninguém dá bom dia pra moça do caixa,
eu morro entalada.

Com o pulmão cheio de frase
e a boca vazia de coragem.
De uma hora pra outra,
assim, com esse céu azul e os passarinhos pairando na fiação elétrica,
eu morro
empanturrada de cuscuz, silêncio e dor. 

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Inventário de uma bolha


Sempre tive medo de altura
e fascínio
e delírio
e loucura pelo céu.
Ele sopra,
pego fôlego
e me lanço no ar.
Delicioso vôo,
mas depois quem explode sou eu

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

O último bilhete de Getúlio


Querida,
era doce.
É agosto.
Se fosse menos amargo,
eu tomava todo dia.  

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Úrsula


Quando Chico canta isso eu me sinto em casa.
É como se em algum momento a música tivesse parado e “casa” deixou de ser lugar, tornou-se tempo.

A infância foi lá pra trás, no quintal onde a gente joga as coisas que não usa mais.
“Roda mundo, roda gigante, roda moinho, roda pião”.

Sinto-me em casa quando a vejo tomando vinho na boca do fogão. 
Feijão, arroz, afeto, vinagre, vitrola, ciúme, azeite, sal, limão e um suco ralo.
- Passa o sal. 
- Tem farofa?
- Num quero
- Num gosto
- Vai comer
O outro chega da feira, tira a camisa e joga as sacolas no chão, depois vai se deitar na rede 
Da cozinha ela grita meu nome arrastando as sílabas pelo ar.
Penso no dia em que Macondo será prédio, a demolição, a fundação, tijolo por tijolo, numa dívida lógica, em suaves duzentos meses pela Caixa. Pessoas morando sobre as nossas memórias, empilhadas, num desenho mágico. 
E ao meio dia de um futuro qualquer, milhares de crianças ouvirão o mesmo grito que vem da cozinha sem saber pra onde olhar.

O tempo dá voltas. Fico tonta, mas permaneço no mesmo lugar. Giro. Isso me desequilibra profundamente.


sexta-feira, 13 de julho de 2012

Desencanto

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Tinha sete anos quando a levaram pela primeira vez ao oculista.
Tava na idade das perguntas difíceis de serem respondidas e logo questionou o porquê daquilo.
Disseram que era para ver as coisas como elas realmente são.
E assim, aos sete anos e dois graus, perdeu a infância no oftalmologista. 

domingo, 8 de julho de 2012

17h15

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- Qual é a primeira coisa que você vai fazer quando sair daqui?

- Sentir saudade 

sábado, 7 de julho de 2012

16h30

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- um pássaro! Olha lá. Direitinho um passarinho, direitinho.

 - pois eu vejo um elefante.

- olha direito, tá fazendo uma dobra ali. Ali ó. É a asa, direitinho.

- olha o avião!

- o quê?

- ah! passou
- Cansei de ver cortina, agora eu quero o céu.  

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Hã?

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- Como foi mesmo que a gente veio parar aqui?
- É simples. Um dia a gente disse “sim”.  


Saudosismo

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- Comprou pão?
- Comprei
- Cadê os sonhos?
- Já não se fazem mais como antigamente. 

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Conversa furada

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- O mundo lá fora e eu doido pra voar
- Tu sabe o que é o mundo?
- Sei não. Diga aí.
- Eu {e tudo o que não sou eu}
- E o resto?
- O resto é horizonte.  

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Instruções para sabotar o relógio *



Em movimento contínuo, descreve um arco e passa metodicamente pelo mesmo lugar. Será que sim? Será que não? Será que o quê?
Unidade imaginária, onipresente, segue em frente, petulante e decidido. Sigo-o com os olhos, mas sei que quando me distraio é ele quem olha pra mim e travamos um duelo. Perde quem se deixar vencer pelo cansaço. Ganha quem mais tem apreço pela rotina.
Confesso, já perdi, embora faça o jogo.  
Por isso é que, às vezes, é preciso sabotá-lo, atrasá-lo, enganá-lo, deixar que escapula das mãos, fingir desconsolo e assim, displicentemente, perder a hora de voltar. 


*Cortázar - Preâmbulo às instruções para dar corda no relógio: Pense nisto: quando dão a você de presente um relógio [...]. Não dão um relógio, o presente é você, é a você que oferecem para o aniversário do relógio”.
 

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Plongée


De uma hora pra outra o tempo para em frente à janela de casa. Há árvores de copas imóveis, suspensas, paralisadas no ar. E fez-se o vácuo, silencioso e abafado como o prenúncio da chuva. Mas a brisa corre mansa em algum lugar perto/longe daqui.
Na vizinha há vozes de crianças e cheiro de pão assado. Nessa casa já se ouve disso e já se houve também.

Da varanda, o horizonte é ainda mais bonito e distante e impossível.

Solto bolhas pra ver se chegam lá. Elas não aguentam tanta pressão. A gravidade é implacável, principalmente a da situação. Quem tiver paraquedas que pule. Quem tiver medo de altura que finque. Quem tiver esperança que procure. Quem tiver coragem que mude. Quem tiver só que corra pra imensidão.  

segunda-feira, 23 de abril de 2012



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Deitou os livros no chão, as pastas, os álbuns de fotografia com as suas aguadas empalidecidas pelos dias. A memória é amarela e cheia de manchas escuras.
Ela já é uma senhora de idade e ainda pede cuidado.
Vasculhou caixas, tirou tudo de dentro e são tantas coisinhas miúdas. Deixou sempre algo, esquecido? Ou de caso pensado?  Abriu aquele livro de capa dura e repetiu o mesmo com os outros e outros e... Por que não colocar o disco do Caetano?
E são tantos os discos e faltou tirar a poeira da estante, organizar, ordenar, ajeitar.
Procrastinar.
E arrumar a vida ficou para depois.
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domingo, 15 de abril de 2012

cândido ou otimismo

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Tédio é o filho do Ócio. Trata-se de um pequeno de 7 anos que anda pelos domingos a perguntar coisas que a gente não sabe responder.
- Você acha que a vida é ruim?
- Não, acho que poderia ser melhor.
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terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

As árvores, meu filho, não têm alma.

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Moro na mesma rua há 28 anos. Já vi de quase tudo, mas um acontecimento me causou certo espanto esta semana. A morte abrupta de uma árvore frondosa, personagem da paisagem de minha infância. Devia ter pouco menos de duas décadas e tombou por inteiro como se suas raízes tivessem se despregado da terra. Ninguém sabe o motivo. Mistério. A vizinha fala que foi o vento. Brisa leve em madeira de lei, ah como derruba. De todos os órfãos ninguém sofre mais do que a viúva da casa, desamparada, destelhada, vivendo um luto de sabe-se lá quantos sóis. É verão e será inverno até a segunda ordem.

Era saudável e imponente. Não adoeceu nem deu sinais que estava partindo. A enfermidade é a perda em penosas parcelas mensais. É doloroso, mas prepara. Já o desaparecimento, o mal súbito, o suicídio, estes cobram juros exorbitantes e violentos. É o destino pregando uma peça e tirando todas as outras de lugar. É mais ou menos assim: vedam seus olhos, depois lhe giram 360 vezes e finalmente te soltam em qualquer direção. Agora vai, segue o teu caminho sem mim.

Há três anos outra árvore caiu nesta mesma rua. Ela devia ter uns 70 anos. Ainda lembro o quanto a sua sombra era frondosa.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Um, dois, três e...

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O tempo deu partida.

Só me resta a contagem regressiva

Agora é valendo.

Não tenho fôlego. E agora?

Fico na saída

Meus músculos de paralelepípedo

Flácidos, paralíticos.

Meu riso ladeira abaixo

Sem purpurina nem saia de bailarina

ensaio uns passos

Me fantasio de proletário

Pareço a foto três por quatro


Agora é viver.

Entro no barco, descrevo um arco.

E jogo as cinzas dessa quarta no mar

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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Gênesis

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Não ligo se o espelho diz que é brega. Se a cintura já não se liberta do pudor. De uma hora pra outra me contamino por inteiro com esse sentimento. Não ligo se foi Adão, Eva, Caetano ou Wando quem inventou. Boto música romântica, canto junto, choro tomando café e espero o teu olhar como quem fica no pé do portão. Por horas a fio eu teço a tua chegada às minhas retinas ansiosas. Qualquer pedaço de ilusão satisfaz esse astigmático coração.
Nessas tardes, penso que teria uns cinco filhos com nomes parecidos e ao meio dia, em voz alta, chamaria todos a ocuparem os seus lugares à mesa. Feijão, arroz e café com pão dia após dia e nessa sucessão desenfreada faria da minha vida a continuação de muitas. Nós perpetuando essa espécie de encanto que até hoje ninguém sabe quando foi que começou.
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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Azulejaria portuguesa

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Adriana Varejão


Eles dizem para seguir em frente, mas não dão o mapa nem sequer um empurrão.

Pensar nisso, mas não se afogar nesse vão. José tinha razão, o bom é soltar os freios e os arreios até sentir medo de se esbagaçar no chão.


A linguagem não dá conta, mas a pele dá, embora se rasgue toda.

Na boca da ladeira o mar se esparrama na amplidão. Não canso de contemplá-lo.

Dizer que é bonito é o mesmo que dizer que é azul.

É preciso se lançar, mesmo que a carne sofra, mesmo que amanhã se acabe.
Ela é fraca. Ele, imensidão. Ela, ressaca. Ele na linha do horizonte. Ela, sei lá. Diz aí.
Tinha vinho, tinha pão. Pra quê mais?

domingo, 8 de janeiro de 2012

Em janeiro

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Entre as cinco e às seis da tarde alguma coisa faz o tempo parar.

E tudo paira.

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