terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

As árvores, meu filho, não têm alma.

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Moro na mesma rua há 28 anos. Já vi de quase tudo, mas um acontecimento me causou certo espanto esta semana. A morte abrupta de uma árvore frondosa, personagem da paisagem de minha infância. Devia ter pouco menos de duas décadas e tombou por inteiro como se suas raízes tivessem se despregado da terra. Ninguém sabe o motivo. Mistério. A vizinha fala que foi o vento. Brisa leve em madeira de lei, ah como derruba. De todos os órfãos ninguém sofre mais do que a viúva da casa, desamparada, destelhada, vivendo um luto de sabe-se lá quantos sóis. É verão e será inverno até a segunda ordem.

Era saudável e imponente. Não adoeceu nem deu sinais que estava partindo. A enfermidade é a perda em penosas parcelas mensais. É doloroso, mas prepara. Já o desaparecimento, o mal súbito, o suicídio, estes cobram juros exorbitantes e violentos. É o destino pregando uma peça e tirando todas as outras de lugar. É mais ou menos assim: vedam seus olhos, depois lhe giram 360 vezes e finalmente te soltam em qualquer direção. Agora vai, segue o teu caminho sem mim.

Há três anos outra árvore caiu nesta mesma rua. Ela devia ter uns 70 anos. Ainda lembro o quanto a sua sombra era frondosa.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Um, dois, três e...

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O tempo deu partida.

Só me resta a contagem regressiva

Agora é valendo.

Não tenho fôlego. E agora?

Fico na saída

Meus músculos de paralelepípedo

Flácidos, paralíticos.

Meu riso ladeira abaixo

Sem purpurina nem saia de bailarina

ensaio uns passos

Me fantasio de proletário

Pareço a foto três por quatro


Agora é viver.

Entro no barco, descrevo um arco.

E jogo as cinzas dessa quarta no mar

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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Gênesis

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Não ligo se o espelho diz que é brega. Se a cintura já não se liberta do pudor. De uma hora pra outra me contamino por inteiro com esse sentimento. Não ligo se foi Adão, Eva, Caetano ou Wando quem inventou. Boto música romântica, canto junto, choro tomando café e espero o teu olhar como quem fica no pé do portão. Por horas a fio eu teço a tua chegada às minhas retinas ansiosas. Qualquer pedaço de ilusão satisfaz esse astigmático coração.
Nessas tardes, penso que teria uns cinco filhos com nomes parecidos e ao meio dia, em voz alta, chamaria todos a ocuparem os seus lugares à mesa. Feijão, arroz e café com pão dia após dia e nessa sucessão desenfreada faria da minha vida a continuação de muitas. Nós perpetuando essa espécie de encanto que até hoje ninguém sabe quando foi que começou.
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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Azulejaria portuguesa

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Adriana Varejão


Eles dizem para seguir em frente, mas não dão o mapa nem sequer um empurrão.

Pensar nisso, mas não se afogar nesse vão. José tinha razão, o bom é soltar os freios e os arreios até sentir medo de se esbagaçar no chão.


A linguagem não dá conta, mas a pele dá, embora se rasgue toda.

Na boca da ladeira o mar se esparrama na amplidão. Não canso de contemplá-lo.

Dizer que é bonito é o mesmo que dizer que é azul.

É preciso se lançar, mesmo que a carne sofra, mesmo que amanhã se acabe.
Ela é fraca. Ele, imensidão. Ela, ressaca. Ele na linha do horizonte. Ela, sei lá. Diz aí.
Tinha vinho, tinha pão. Pra quê mais?