terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

As árvores, meu filho, não têm alma.

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Moro na mesma rua há 28 anos. Já vi de quase tudo, mas um acontecimento me causou certo espanto esta semana. A morte abrupta de uma árvore frondosa, personagem da paisagem de minha infância. Devia ter pouco menos de duas décadas e tombou por inteiro como se suas raízes tivessem se despregado da terra. Ninguém sabe o motivo. Mistério. A vizinha fala que foi o vento. Brisa leve em madeira de lei, ah como derruba. De todos os órfãos ninguém sofre mais do que a viúva da casa, desamparada, destelhada, vivendo um luto de sabe-se lá quantos sóis. É verão e será inverno até a segunda ordem.

Era saudável e imponente. Não adoeceu nem deu sinais que estava partindo. A enfermidade é a perda em penosas parcelas mensais. É doloroso, mas prepara. Já o desaparecimento, o mal súbito, o suicídio, estes cobram juros exorbitantes e violentos. É o destino pregando uma peça e tirando todas as outras de lugar. É mais ou menos assim: vedam seus olhos, depois lhe giram 360 vezes e finalmente te soltam em qualquer direção. Agora vai, segue o teu caminho sem mim.

Há três anos outra árvore caiu nesta mesma rua. Ela devia ter uns 70 anos. Ainda lembro o quanto a sua sombra era frondosa.

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