quinta-feira, 24 de maio de 2012

Instruções para sabotar o relógio *



Em movimento contínuo, descreve um arco e passa metodicamente pelo mesmo lugar. Será que sim? Será que não? Será que o quê?
Unidade imaginária, onipresente, segue em frente, petulante e decidido. Sigo-o com os olhos, mas sei que quando me distraio é ele quem olha pra mim e travamos um duelo. Perde quem se deixar vencer pelo cansaço. Ganha quem mais tem apreço pela rotina.
Confesso, já perdi, embora faça o jogo.  
Por isso é que, às vezes, é preciso sabotá-lo, atrasá-lo, enganá-lo, deixar que escapula das mãos, fingir desconsolo e assim, displicentemente, perder a hora de voltar. 


*Cortázar - Preâmbulo às instruções para dar corda no relógio: Pense nisto: quando dão a você de presente um relógio [...]. Não dão um relógio, o presente é você, é a você que oferecem para o aniversário do relógio”.
 

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Plongée


De uma hora pra outra o tempo para em frente à janela de casa. Há árvores de copas imóveis, suspensas, paralisadas no ar. E fez-se o vácuo, silencioso e abafado como o prenúncio da chuva. Mas a brisa corre mansa em algum lugar perto/longe daqui.
Na vizinha há vozes de crianças e cheiro de pão assado. Nessa casa já se ouve disso e já se houve também.

Da varanda, o horizonte é ainda mais bonito e distante e impossível.

Solto bolhas pra ver se chegam lá. Elas não aguentam tanta pressão. A gravidade é implacável, principalmente a da situação. Quem tiver paraquedas que pule. Quem tiver medo de altura que finque. Quem tiver esperança que procure. Quem tiver coragem que mude. Quem tiver só que corra pra imensidão.