quinta-feira, 19 de julho de 2012

Úrsula


Quando Chico canta isso eu me sinto em casa.
É como se em algum momento a música tivesse parado e “casa” deixou de ser lugar, tornou-se tempo.

A infância foi lá pra trás, no quintal onde a gente joga as coisas que não usa mais.
“Roda mundo, roda gigante, roda moinho, roda pião”.

Sinto-me em casa quando a vejo tomando vinho na boca do fogão. 
Feijão, arroz, afeto, vinagre, vitrola, ciúme, azeite, sal, limão e um suco ralo.
- Passa o sal. 
- Tem farofa?
- Num quero
- Num gosto
- Vai comer
O outro chega da feira, tira a camisa e joga as sacolas no chão, depois vai se deitar na rede 
Da cozinha ela grita meu nome arrastando as sílabas pelo ar.
Penso no dia em que Macondo será prédio, a demolição, a fundação, tijolo por tijolo, numa dívida lógica, em suaves duzentos meses pela Caixa. Pessoas morando sobre as nossas memórias, empilhadas, num desenho mágico. 
E ao meio dia de um futuro qualquer, milhares de crianças ouvirão o mesmo grito que vem da cozinha sem saber pra onde olhar.

O tempo dá voltas. Fico tonta, mas permaneço no mesmo lugar. Giro. Isso me desequilibra profundamente.


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