quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Causa vida


É como se tivesse engolido umas seis colheradas de cuscuz
O ar não entra nem sai.
Vou morrer.
Eis a nota no jornal de amanhã,
- Morre fulana de tal, de nó no peito e farinha de milho -
Vou morrer com a banalidade de quem mata a fome.

Enquanto os escritórios funcionam
e as pessoas pifam,
enquanto uns falam da vida dos outros
e os outros falam da vida de uns,
enquanto as mães amamentam
e as vacas são sacrificadas,
enquanto a padaria vende pães e doces
e ninguém dá bom dia pra moça do caixa,
eu morro entalada.

Com o pulmão cheio de frase
e a boca vazia de coragem.
De uma hora pra outra,
assim, com esse céu azul e os passarinhos pairando na fiação elétrica,
eu morro
empanturrada de cuscuz, silêncio e dor.